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Ruas Expostas

Um blogue em português sobre fotografia e fotografia de rua, por Orlando Figueiredo

Ruas Expostas

Um blogue em português sobre fotografia e fotografia de rua, por Orlando Figueiredo

Caderno 1: O que é a Fotografia de Rua?

Folha 2: Candura e espontaneidade do momento

Índice do Caderno 1: O que é a Fotografia de Rua?

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Na Folha 1 deste Caderno, onde tentámos definir o que é a Fotografia de Rua, terminámos com um conjunto de perguntas que procuram identificar características deste género fotográfico. As questões aí levantadas serão discutidas num conjunto de postagens de que esta é a primeira. A resposta à primeira pergunta,

Tem [uma fotografia de rua] de ser uma foto cândida, garantindo a espontaneidade do momento ou pode ter um certo grau de encenação?,

está longe de ser um simples sim ou não. A resposta prende-se com fatores diversos que vão desde as interceções deste com outros géneros fotográficos, às questões estéticas, artísticas e de composição ou, simplesmente, as limitações técnicas impostas pelo equipamento fotográfico usado.

Em 1877, o fotógrafo escocês John Thomson (1837-1921) e o jornalista Adolphe Smith (1846-1924) publicaram, o livro Street life in London. A técnica do colódio húmido, usada pelo fotógrafo e muito comum na época, impediu qualquer pretensão de espontaneidade e candidez nas fotos de Thomson. Esta técnica, apesar de ter sido revolucionária na sua redução, necessita de tempos de exposição da ordem dos vários segundos, o que obrigou o fotógrafo a encenar situações do quotidiano das ruas londrinas. Além disso, as placas de colódio húmido exigem uma parafernália de instrumentos que o fotógrafo tem de transportar consigo, geralmente, num pequeno carrinho.

London Nomads - 'Street Life in London', 1877, John Thomson and Adolphe Smith

London Nomads - 'Street Life in London', 1877, John Thomson e Adolphe Smith - Cortesia de LSE Digital Library (CC BY-NC-SA 3.0)

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As placas de vidro contendo o colódio húmido tem de ser preparadas e usadas no momento de ralização da fotografia, num intervalo de tempo de aproximadamente 5 minutos. Quando o fotógrafo tinha a placa de colódio pronta, toda a cena tinha de estar preparada para ser exposta, pelo que é fácil copreender o quão difícil teria sido para o fotógrafo roubar discretamente um momento das vidas dos londrinos fotografados. Essas encenações recorriam aos protagonistas das ruas, aos mais expostos e desfavorecidos, - engraxadores, nómadas, vendedoras de flores… - procurando construir uma narrativa das dificuldades e da dureza da vida nas ruas londrinas, em plena era vitoriana. Contudo, como se pode observar no exemplar disponibilizado online pela LSE Digital Library, muitas das encenações levadas a cabo por Thomson procuram traduzir um episódio cândido e espontâneo do quotidiano das pessoas nas ruas de Londres, característico do que, anos mais tarde, viria a ser classificado como fotografia de rua.

Street Life in London,  pode ser visto como um híbrido entre o documentário e a fotografia de rua. Na folha 1 deste caderno, referimos que a fotografia de rua é

um trabalho fotográfico, feito num local público, que busca narrar uma história, no contexto de um cenário quotidiano, efémero, espontâneo e cândido, mais ou menos trivial, onde é central a componente humana.

Os trabalhos de Thomson e Smith assumem todos os requisitos apresentados, incluindo a candura e a espontaneidade, ainda que estas tenham sido conseguidas pela interpretção e não pela rapidez que as sofisticadas câmaras fotográficas digitais do nosso século permitem.

Um outro exemplo de fotografia de rua encenada são as fotografias de Jeff Wall (1946 - ) que o próprio intitulou de cinematographic photographs de que a Mimic (1982) é, talvez, a mais famosa. Nesta foto, como de resto nas várias fotografias cinematográficas que Walls fez, há um acontecimento, baseado em testemunhos oculares anteriores do fotógrafo, que é posto em cena deliberadamente para a foto.

Mimic (1982), Jeff Wall

Mimic (1982), Jeff Wall - Cortesia Wikimedia

Mimic recria (denuncia) um insulto racista dirigido por um homem branco a um homem asiático nas ruas de Vancouver que Wall havia anteriormente testemunhado, mas não fotografado. Nas suas fotografias cinematográficas, Jeff Wall socorre-se sempre de atores não profissionais colocados em contextos reais. As fotografias cinematográficas de Wall não são, claro está, cândidas nem espontâneas, mas os momentos e a realidade que buscam reproduzir são-o. Numa exploração documentarista da fotografia de rua, Jeff Wall constrói uma cena propositadamente para a fotografia que o observador apenas sabe porque o fotógrafo o assumiu. Sem este conhecimento, as fotografias cinematográficas de Jeff Wall são apenas fotografias de rua que, tal como as fotografias de John Thomson, procuram denunciar, os enviesamentos discriminatórios das sociedades em que vivem.

Um outro contributo, interessante para a discussão sobre a candura a espontaneidade associadas à fotografia de rua, vem de um jovem fotógrafo novaiorquino Bradon Stanton (1984 - ) e do seu projeto Humans of New York: Stories (2015), antecedido por Humans of New York (2013). O projeto começou em 2010 e tinha como objetivo fotografar 10 000 nova-iorquinos nas ruas da cidade para criar um catálogo exaustivo dos habitantes da Big Apple. Porém, a partir de determinada altura, o fotógrafo começou a interagir com os seus sujeitos e acabou por conduzir pequenas entrevistas. Assim, aquele que começou por ser um projeto puramente fotográfico, acabou por incluir pequenas histórias de vida a par com os retratos dos sujeitos fotografados. É claro que a partir do momento em que, a par das fotografias, se publicam excertos narrativos dos sujeitos fotografados, a espontaneidade e candura da fotografia deixam de existir, mas não da situação. A surpresa do sujeito fotografado não se altera quando este é interpelado pelo fotógrafo que, depois de explicar o seu projeto, pede que pose para a câmara.

 
 
 
 
 
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A situação é inusitada, espontanea, candida, no sentido em que o sujeito não está à espera que um estranho mostre curiosidade e interesse  pela sua voz e imagem. Alguns dos sujeitos fotografados mostram retratos sem rosto; mãos ou outras partes do corpo surgem como legítimos representantes de um rosto cuja ausência é compreendida depois de lida a pequena história que acompanha a foto. Os retratos de rua e as narrativas construídas por Brandon Staton, em interação coma pessoa fotografada, são veículos de empoderamento das pessoas retratadas. Stanton mostra a cada um dos sujeitos que retratou, (mesmo daqueles que, por opção, preferem não ver as suas fotografias e histórias divulgadas) que a sua existência conta, que a sua história merece ser ouvida e que há muitos que a saberão valorizar. 

São três instâncias, separadas por mais de um século, em que a espontaneidade e a candura são trabalhadas de forma alternativa. Na primeira, através de uma encenação, na segunda, através de todo o processo de mise-en-scène, garante da candura e espontaneidade, conseguidas através de dois tipos de exposição do sujeito: a pictórica (algumas das fotos foram tiradas de surpresa)  e a narrativa (não deixa de ser surpreendente ser abordado por um estranho na rua - mesmo que estas fiquem em Nova Iorque - interessado no nosso retrato e nas nossas experiências de vida).

Talvez a expressão mais natural da candura e espontaneidade resida nos retratos conseguidos por Bruce Gilden (1946 - ) quando aponta a sua câmara e o seu flash junto à face das pessoas roubando-lhes, um momento das suas vidas de que estas só se apercebem depois do facto consumado.

 
 
 
 
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São várias as abordagens permitidas no contexto da fotografia de rua, de forma a garantir a espontaneidade do momento e a candura dos sujeitos, todas válidas, mas que exprimem diferentes visões do alvoroço que são as vidas humanas. O conceito de serendipidade (serendipity), criado pelo escritor inglês Horace Walpole em 1754, que se refere ao acaso de encontrar algo precioso e inusitado, está subjacente aos atributos de candura e esoontaneidade da fotografia de rua. Quer a serendipidade esteja associada à própria fotografia, como é o caso do trabalho de Bruce Gilden referido, ao sujeito fotografado que conta uma história que vai além do retrato, como no caso dos Humans of New York de Brandon Stanton ou à (re)construção de uma oportunidade de documentar (denunciar) eventos ocorridos no espaço público, como sugerem as obras de Jeff Wall e de John Thomson, ela permeia o conceito e a prática de um género fotográfico único, como a fotografia de rua.

(Para continuar...)

 

publicado às 18:27

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